Willian Tardelli - Fotojornalismo em Araxá e região

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“Anjos pra quem tem fé!”, Bombeiros Militar de Araxá, prestam homenagem ao colega morto em homicidio, e aguardam por punição dos culpados.

Publicado em 12-11-2015 00:00

       “Anjos pra quem tem fé!”

       Antes de começar a contar essa história relutei várias vezes. Isso porque, gostaria de fazê-lo quando tudo estivesse esclarecido. Porém por vários motivos cheguei à conclusão de que nunca, independente do que aconteça essa tal história estará resolvida. Principalmente porque dentro dos corações das pessoas que amavam, conviviam e trabalhavam com Gislei de Oliveira Reis, Sargento do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, ficará sempre a indignação, a dor e, principalmente a pergunta: Porque?

       Estaremos sempre nos questionando qual seria a explicação que justificasse deixar chegar as coisas onde chegaram. Mas, esse não é aqui meu objetivo, outrossim é descrever aquela trágica noite em que nós Bombeiros da cidade de Araxá vivemos e revivemos até hoje. Até hoje, não há um dia sequer no qual não se pense nisso, que não se sinta os cheiros, dores e desespero daqueles momentos. “Anjos pra quem tem fé!”

       Aquele dia começou já movimentado. Para uma cidade de pouco menos ou pouco mais de cem mil habitantes, Araxá situada na região do Alto Paranaíba na linda Minas Gerais, tem um dia a dia movimentado para os Bombeiros. Cheguei cedo no pelotão entrando de serviço e já me deparei com uma onça sussuarana capturada em uma jaula. Conversando com os colegas descobri que fora capturada em uma fazenda na qual trazia risco para os moradores locais. Ficaria por nossa conta, com apoio com o Instituto Estadual de Florestas reinseri-la no seu habitat natural.

       O chefe da equipe que capturou a onça era o Sargento Gislei, um bombeiro à moda antiga. O que para nós significa que ele, apesar de ter e conhecer todas as técnicas do nosso trabalho, era conhecido pela força e vigor físico, pela lealdade e calma com os quais lidava com as situações que o desafiava no dia a dia, cheio de adrenalina que um Bombeiro tem. Conheci o Gislei quando ele fora transferido para a cidade de Araxá por ocasião de formatura no curso de Sargentos Bombeiros no ano de 2007 e, desde então aprendi a admirá-lo, apesar de não poder dizer que éramos próximos.

       Havia estado em algumas festas nas quais ele estava presente com sua esposa e filhos, aliás seu filho do meio, carinhosamente chamado por nós de Cadú, é praticamente da mesma idade do meu filho mais novo, cerca de 7 anos à época. Por isso mesmo já fora convidado pelo próprio Gislei, para ir à sua casa com a finalidade de “as crianças brincarem”, convites esses que, não sei porque, nunca se concretizaram. Voltando ao dia em questão, o assunto da ocorrência da onça era o mais comentado por todos. O Gislei havia contado já a uma dezena de pessoas como a haviam capturado, havia dado entrevistas e ainda chegava mais gente querendo saber. Seria o assunto do dia, na opinião de todos, e eu gostaria que realmente tivesse sido, pois ninguém esperava o que estava para acontecer.

       Apesar de ter deixado o plantão, Gislei não foi embora pra casa como era de se esperar depois de vinte e quatro horas de trabalho duro. Não foi embora porque tinha outras incumbências no quartel inerentes à vida de um sargento. Trabalharia o dia todo com a tramitação de processos administrativos. Apesar de ele passar o dia todo no quartel o vi somente durante o hasteamento da bandeira as oito da manhã e logo saí em ocorrências, as quais me consumiram o dia até o anoitecer. Inclusive fomos libertar a onça que ele havia conseguido capturar em uma reserva de mata virgem, somente à noite, acompanhados pelos integrantes do Instituto Estadual de Florestas.

       Quando voltei ao quartel depois disso, já era por volta de oito horas da noite e o corpo já reclamava um pouco de cansaço das ocorrências do dia. Tomei um banho revigorante e jantei. Como bons bombeiros gostamos de sempre de atender ocorrências, amamos isso, mas a noite tinha tudo para ser tranquila, e nós torcíamos para isso. Mas parece que, apesar da nossa torcida não seria assim tão fácil. Momentos depois de jantarmos a luz vermelha se acendeu. A sirene tocou. No sistema de som o telefonista dava conta de um acidente com moto (tão normal na cidade), e que a vítima estava somente com escoriações. Menos mal a vítima não estar aparentando nenhum ferimento grave, mais cedo ele iria voltar para casa e tocar a vida normalmente, pensamos nós.

       Saímos na viatura 1º sargento Wiler, Soldado André e eu. Estávamos indo para o local da ocorrência de acidente de moto quando o rádio operador nos chamou pelo rádio. A voz dele parecia tremida, apavorada e apressada. Me lembro que estranhei naquele momento, porque estamos acostumados a lidar com situações de emergência. Me perguntei na hora o que havia conseguido tirar, nem que seja por um momento, a tranquilidade de um bombeiro daquela forma. A resposta veio rápida à minha pergunta. Antes mesmo de respondermos ao chamado do rádio, a voz intranquila do rádio disse para que deslocássemos urso, urso (termo militar que indica urgência urgentíssima), à casa do sargento Gislei, pois ele havia SIDO BALEADO NA PORTA DE SUA RESIDÊNCIA!

       Uma descarga violenta de adrenalina tomou conta do meu corpo e olhei para meus companheiros que me acompanhavam na viatura e os dois estavam com a mesma expressão de incredulidade. Então nós da guarnição, entramos em um pesadelo, em um mundo paralelo, onde o caos imperava e não se tem saída aparente. E nós ainda não havíamos visto nada, do pesadelo estava apenas no início. Por sorte (se é que posso dizer isso), estávamos a pouco mais de quinhentos metros da casa dele. Até hoje, não acredito em como estávamos perto de tudo quando aconteceu! Se tivéssemos nos adiantado uns dois minutos teríamos visto o atirador balear covardemente nosso companheiro. Fizemos o retorno e chegamos na porta da casa dele em menos de dois minutos.

       Uma pessoa sinalizava na rua em que devíamos virar, como se não soubéssemos onde é a casa dele, ou talvez por não saber o que fazer naquela situação. Quando vi o Gislei, ele estava caído na porta de sua casa, com a moto ligada, o capacete da moto em que pilotava fora da cabeça descia a rua que era íngreme e ninguém dava atenção a isso. Naquele momento parecia que eu via tudo em branco e preto, tentava saber o que fazer primeiro. A esposa dele Gislei chorava e gritava que um tal “Jacson” havia atirado em seu marido, e eu, até hoje não sei o que isso quer dizer. Neste momento ela era amparada por outras pessoas e berrava desesperada. Até o momento em que pedi para o André pegar a maca na viatura, então vi o Cadu, com um olhar que misturava susto, desespero e desolação ao mesmo tempo.

       Vi naquele momento uma criança que não entende nada aparentemente se questionar quem havia tido força suficiente para deixar deitado o super herói que ele aprendera a admirar desde que nasceu? O que estava acontecendo? Porque, mesmo o super herói estando com sua capa mágica (seu pai estava fardado), havia se machucado? Eram respostas que eu não tinha tempo nem condições de dá-las ao Cadú! E acho que ele irá procurá-las o resto da vida! Quando o André voltou com a maca, me lembro de ter olhado no rosto do meu companheiro, conversado com ele dizendo que iria tudo dar certo, e ele, com os olhos esbugalhados e uma expressão que, até hoje não sei definir, deu seu último suspiro! Não foi um suspiro profundo, nós bombeiros definiríamos como “Gaspig”. Um suspiro superficial, sem movimentar o peito. Um prelúdio de que as coisas não estavam nada boas. Eu entendi como um pedido de socorro a nós, que tantas vezes resgatamos pessoas as quais nem conhecíamos, e agora pesava (e como pesava) toda a responsabilidade de dar ao nosso irmão de farda o socorro adequado e levá-lo de volta para casa bem.

       Colocamos o Bombeiro dentro da viatura que tantas vezes ele mesmo utilizara para ajudar os outros e agora servia de fiel da balança entre sua vida ou morte. Nesse momento eu consegui sair um pouco do pesadelo. O interior da viatura é um ambiente muito familiar pra mim, portanto me deixou colocar a cabeça no lugar pra fazer o que sempre fui treinado pra fazer. Olhei para o André, ele, que era à época um bombeiro com pouco mais de dois anos de trabalho, estava sem saber o que fazer. Senti que era responsabilidade minha colocá-lo em condições de ajudar, até mesmo porque, até chegarmos ao hospital o Sargento Willer, que era o mais antigo da guarnição estaria dirigindo a viatura e não poderia nos ajudar nos procedimentos. Então todo o treinamento, todo o estudo, toda a experiência que o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais nos proporcionou começou a fazer efeito para o bem da vítima, que eu teria que esquecer, por enquanto que era um irmão de farda.

       Peguei a tesoura e cortei a farda dele como se corta qualquer roupa, como se não estivesse pesando naqueles símbolos que ostentava com orgulho, mais de cem anos de tradição e de vidas e bem salvos. Mas eu precisava acessar o corpo da vítima. Colocamos os eletrodos do desfibrilador no paciente e começamos a fazer as massagens e a respiração artificial ainda abalados, mas com a técnica correta e com a certeza de que nosso companheiro sairia dessa. Eu mesmo conversava com ele no intervalo em que não estava fazendo massagem. Dizia pra ele, como se ele pudesse me uvir: “Respira bombeiro, força bombeiro, você sai dessa!”.

       Quando chegamos no hospital os plantonistas já sabiam do que se tratava, estavam todos nos aguardando. A ideia de atender quem sempre esteve naquele lugar para levar as pessoas que necessitavam de ajuda não incomodava somente a nós. Fomos recebidos pelas equipes de enfermagem e médica com um semblante diferente, pesado! Com uma carga de emoção que não era normal. A esta altura já sabíamos que a situação seria quase irreversível. Com cinco perfurações pelo corpo, sendo uma delas pelas costas, nosso irmão de farda começava o jogo dentro da sala de emergência já perdendo. Vez ou outra, durante as massagens eu conversava com ele, que continuava de olhos abertos, sempre repetia como se cantasse um mantra: “Hoje não bombeiro, força, você sai dessa, respira, respira, pulsa.” Quando era eu quem fazia as massagens naquela noite quente, suava como se em uma sauna estivesse. Quando estava descansando dando minha vez ao André ou outro da equipe de enfermagem ficava estupefato e me perguntava quando aquele pesadelo iria acabar. Quando sairíamos daquele mundo paralelo? O que havia acontecido realmente? Mas não tínhamos essas respostas. Aliás, eu não queria essas respostas. Eu queria trazê-lo de volta. Não queria nem aceitava ver um bombeiros morrer diante de mim daquela forma, não daquele jeito! Foram, exatamente, sessenta e dois minutos de tentativas de ressuscitação cardiopulmonar.

       Muito mais do que o protocolo médico exige, porém muito menos do que eu e meus companheiros gostaríamos e aguentaríamos tentar por um irmão de farda, por um peso a ser levado pelo resto da vida, pela negativa da visão dele tentando respirar pela última vez. Porém o médico disse o que era àquela altura inegável. “Pode parar”, disse ele. Um silêncio estranho se abateu sobre nós. Aquele universo paralelo havia ido embora com seu caos, mas deixou pra nós um corpo inerte, sem vida e uma tragédia pra levar nos nossos corações pela vida toda. A notícia da constatação do óbito dele caiu como uma bomba na moral minha e do André que permanecíamos na sala de emergência.

       Ele sentou-se em um canto da sala e chorou copiosamente, como se fosse uma criança, como se não acreditasse em tudo o que via. Senti a vontade de fazer o mesmo, mas, como aprendi no Bombeiro, quem sai junto, chega junto, portanto precisava levá-lo de volta ao quartel, para que, juntos, nós dois, pudéssemos desabar enfim. Peguei-o pela gola da gandola e o coloquei na viatura. Não sei como dirigi até o quartel naquele dia. Não me lembro ao menos do itinerário. Quando chegamos aí sim, que alívio! Podia chorar também. Não levei o meu companheiro com vida de volta como queria o tempo todo do atendimento. Mas cheguei no “ponto zero” e isso me trazia um ar de estar em casa, um que de proteção.

       Foi então que saí um pouco do pesadelo, que me lembrei da mulher que tanto amava e resolvi ligar pra ela, apesar da hora. Quando ouvi sua voz, foi como se um anjo falasse ao meu ouvido. Como se este anjo entoasse um júbilo de acalento e de proteção. Como era bom ouvir a voz da minha esposa! Logicamente não demorei a cair em pranto ao telefone. Ela, incrédula e preocupada tentava me consolar, mas, naquele momento eu não podia ser consolado. Somente a constatação de que ela existia me servia como força para continuar e não ficar maluco com o que acabara de ver. Naquele momento agradeci imensamente a Deus por tê-la ao meu lado, não sei o que faria sem ela! Precisava recarregar as energias um pouquinho, pois sabia que a noite ainda seria longa e que estava longe de acabar tudo aquilo. Despedi dela como sempre com um eu te amo, mas um eu te amo diferente, um que veio de um lugar dentro de mim que talvez tenha visitado poucas vezes. Um eu te amo vindo da alma! Quando desliguei o telefone foi uma enxurrada de coisas.

       Como não poderia ser diferente, quando um militar morre, ainda mais nessas condições, nosso meio vira um vespeiro agitado. Nossos comandantes já estavam na cidade, a polícia já tinha pistas dos assassinos e as perguntas brotavam de todas as partes. E eu só conseguia não esquecer da visão de um companheiro tentando respirar pela última vez. Só conseguia pensar o quanto de conhecimento em prol do próximo e da vítima estaria indo para o caixão com o Gislei. Mas uma frase me consolou naquela noite, um ditado do qual me lembrei e que nem ao menos sei o autor. Essa ditado dizia que “Bombeiros são como anjos. E como anjos que são, nunca morrem, apenas retomam seu lugar nos céu junto a Deus.”

Autor do texto: 3º Sargento Marcelo Teixeira. Corpo de Bombeiros Militar de Minas, lotado no 1º Batalhão do Corpo de Bombeiros de Araxá.

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